Um longo projeto chega ao fim

posted 23 Oct 2014, 15:50 by Luciano Monteiro   [ updated 27 Oct 2014, 07:53 ]

Neste dia 31 de dezembro de 2014, chegará ao fim um longo, árduo e gratificante projeto de mais de cinco anos. Foi no início do segundo semestre de 2009 que recebi um contato inicial para gerenciar a tradução do site da Fifa ao português. Dois fatores me levaram a aceitar o trabalho. Em primeiro lugar, o reconhecimento da importância da especialização. Eu, que sempre fui a favor da especialização entre os tradutores, me sentia plenamente capaz de assumir um trabalho que teria enorme repercussão para divulgar o futebol internacional entre o público brasileiro. Em segundo lugar, recebi carta branca para montar a minha equipe, selecionando apenas os melhores redatores, tradutores e revisores.

Em setembro daquele mesmo ano, começou efetivamente o trabalho. Se por um lado já aparecia uma quantidade enorme de conteúdos "estáticos" vindos dos quatro idiomas oficiais da entidade (inglês, espanhol, francês e alemão) e também do árabe, ficava mais clara a necessidade de um grande número de tradutores para dar conta do alto volume em todos esses idiomas.

Recruta zero

Eu sabia desde o início que o recrutamento não seria simples, pois já tinha trabalhado com outros tradutores em projetos de futebol anteriormente e tinha percebido a falta de intimidade de alguns colegas com o assunto. Infelizmente, são muitos os tradutores que se jogam sobre a primeira oportunidade que aparecem e mentem (ou iludem-se) sobre as próprias capacidades. Mesmo assim, achava que, no país do futebol, não haveria escassez de bons profissionais.

Enganei-me. Percebi primeiramente que entre os tradutores faltava quem realmente desse a importância devida ao assunto. O fato de o futebol ser um assunto menos "sério" do que medicina, engenharia ou seguros não o torna mais fácil de traduzir. Além disso, o tradutor de formação tem como característica a dificuldade de se soltar em relação ao original e de se considerar o autor da tradução em vez de apenas o tradutor de um texto autoral. Mesmo após testarmos dezenas de ótimos tradutores, só o que vimos foram textos engessados e que não seriam aceitos em nenhum veículo da imprensa esportiva.

Partimos então para os jornalistas especializados em futebol, gente que escreve com facilidade e sabe bem que tipo de texto o leitor quer. Porém, esbarramos na falta de conhecimento de língua estrangeira. É impressionante como falta no público em geral (do qual os jornalistas são um bom exemplo) o entendimento do que é realmente dominar e compreender uma língua. Novamente por má fé ou falta de autocrítica do candidato, o que vimos foi a incapacidade de efetivamente compreender um texto em inglês, situação que vem piorando cada vez mais em função das ferramentas de tradução automática, que entregam de bandeja um resultado e eliminam o fundamental processo de desconstrução do original para que se possa construir uma tradução. E nem estou falando das outras línguas, em que até mesmo nos anos seguintes foi quase impossível encontrar um bom profissional.

Após nenhum teste ter atingido plenamente as expectativas, vi que seria necessário apostar nos candidatos com maior potencial. E assim começamos, com um trabalho hercúleo de correção e reenvio de textos com vistas a que fosse atingido um certo nível de qualidade. Em meio a este trabalho redigi com base nos erros encontrados o guia que acabou se tornando o Manual de Redação, Tradução e Estilo do site Fifa.com em português. Por fim, depois de mais ou menos seis meses tive o orgulho de poder "promover" uma colega que, após se esforçar muito e aceitar as críticas construtivas, passou a produzir textos com o nível de qualidade desejado.

Absurdos e aberrações

A formação da equipe foi bastante difícil, mas gratificante. Igualmente positiva foi a experiência de efetivamente tomar decisões linguísticas para padronizar até certo ponto a linguagem utilizada no site. O mais importante desde o início foi dar prioridade às formas verdadeiramente brasileiras, aos termos consagrados pela imprensa e pelos torcedores brasileiros nas últimas décadas. Apesar de o esporte ter vindo da Inglaterra e de a nomenclatura inicialmente ser derivada do inglês, o futebol no Brasil ganhou vida própria e, ao mesmo tempo em que criava o seu próprio estilo vitorioso, gerou também uma terminologia com a qual se apossou do futebol e passou a chamá-lo de seu. O Brasil virou o país do futebol, e esse país tem a sua própria língua.

A preocupação com anglicismos não seria tão grave há duas décadas, mas a popularização da internet, a grande disponibilidade de sites em inglês e o baixo nível de instrução em língua portuguesa de muitos jovens brasileiros acabariam fazendo com que termos comuns do português fossem substituídos por termos em inglês ou corruptelas destes. E nessa luta tivemos um grande sucesso. Ao trabalharmos em conjunto, conseguimos evitar aberrações que já se apossavam de certos círculos (o tal do "escore agregado", por exemplo) e percebemos que outros veículos de imprensa passaram também a valorizar mais a importância do nosso idioma.

Não se trata de ufanismo nem de medo de estrangeirismos. A língua evolui, e empréstimos de línguas estrangeiras ocorrem naturalmente. O problema é quando há uma inversão do fluxo natural de influência. Assim como não faz sentido que a língua inglesa seja influenciada por outros idiomas em temas como tecnologia da informação ou finanças, é pouco natural que o país onde o futebol é mais adorado em todo o mundo tenha a sua terminologia específica influenciada por um idioma cuja maioria de falantes pouco sabe sobre o verdadeiro futebol da bola esférica. Como não estávamos nadando contra a maré, não foi difícil atingir os resultados Nestes cinco anos, tive a felicidade de perceber que um site com a influência do Fifa.com conseguiu interromper o avanço de certos absurdos e aberrações linguísticas.

Brasil, mostra a tua cara

Desde que fui escolhido para ser o tradutor-chefe e o editor do site Fifa.com em português, ainda naquela metade de 2009, já sabia que estava iniciando um projeto cujo auge seria alcançado dali a cinco anos, na Copa do Mundo em solo brasileiro. Assim, após o fim do Mundial, nas minhas férias na Rússia, já sabia que, por motivos externos e fora do alcance da área editorial, seria pouco provável manter o mesmo projeto até o torneio de daqui a quatro anos no maior país do mundo em extensão territorial.

Assim, foi com um misto de melancolia e orgulho que recebi há poucas semanas a notícia de que a versão em português realmente sairá do ar no final do ano. Enquanto isso, seguimos o trabalho com a mesma qualidade, mas olhando mais para trás do que para a frente. Afinal de contas, foram muitos os bons momentos nesta caminhada que tornou o Fifa.com o site esportivo com o maior número de visitas em todo o mundo. Além de montar a equipe de língua portuguesa, que variou entre dez e vinte profissionais na maior parte do tempo, foi muito bom interagir com os tradutores e jornalistas dos outros cinco idiomas, muitos dos quais eu já conhecia de outros projetos anteriores.

Apesar de o auge do site em termos comerciais e de visitas ter sido o Mundial deste ano, a Copa do Mundo na África do Sul foi o grande momento para a nossa equipe. Afinal, trabalhamos praticamente sem parar durante os nove meses que antecederam o evento, traduzindo uma enormidade de conteúdos sobre as seleções participantes e sobre o país-sede. Durante o torneio, coroamos o trabalho com um encontro dos editores nos arredores de Marselha, ocasião durante a qual trabalhamos como nunca, mas também tivemos tempo para celebrar as amizades criadas.

Após a Copa do Mundo de 2010, vieram muitos outros torneios, além do material diário sobre o mundo do futebol, com entrevistas, reportagens e notícias. Por outro lado, o trabalho se tornou mais fácil, já que a equipe estava formada, o manual de estilo estava escrito e os assuntos acabavam se repetindo. Paralelamente, cresceu o número de artigos escritos originalmente em português, o que por razões óbvias acabou diminuindo um pouco o volume de trabalho para os tradutores brasileiros. Como resultado, pudemos manter apenas o "núcleo" da equipe, com os profissionais mais capacitados.

Pessoal e profissional

Mesmo com alguns períodos de pouca atividade, sabíamos que o grande momento chegaria, e a elevação dos volumes logo demonstrou que o Mundial estava mais perto do Brasil. Um mês antes, já não havia mais tempo para outros serviços. E durante a Copa do Mundo tenho certeza de que não fui o único a sair da rotina e dedicar praticamente todo o meu tempo disponível. Em um momento já era difícil saber onde terminava a diversão e onde começava o trabalho. Assisti a todas as partidas e tentei o meu melhor para acompanhar as análises vindas de vários países em vários idiomas.

Em suma, vivi com grande prazer o auge de um projeto que, mais do que profissional, foi também pessoal. É uma lástima que tenha chegado a um fim que, analisado friamente, sempre esteve próximo. Mesmo assim, divido o sucesso do trabalho com os coordenadores, tradutores e revisores que estiveram junto comigo e também podem se orgulhar de terem feito parte da história do esporte que se confunde com a própria identidade do brasileiro. 

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