Jivago em Lujniki

posted 30 Mar 2017, 09:22 by Luciano Monteiro

Quando eu era pequeno (e não faz tanto tempo assim, ou será que faz?), me lembro bem de ter visto Doutor Jivago. Para quem não leu o livro nem viu o filme, o título remete ao protagonista, que se chama... sim, Jivago!

Porém, quem procura na Internet hoje em dia vai encontrar mais menções a Zhivago do que a Jivago. Mas por que será? Será que o nome dele tem som de Z e não de J? Bem, não é isso. O problema é a transliteração, ou romanização, da língua russa.

Para quem não sabe, o russo utiliza um alfabeto diferente, o cirílico. Algumas letras têm formato e som semelhantes aos do alfabeto latino, outras têm formato igual e som diferente, outras têm formato diferente e som igual, e outras têm tudo diferente. Por isso é necessário que haja uma padronização, a fim não realmente de traduzir, mas simplesmente de transpor foneticamente uma palavra russa do alfabeto cirílico para o latino.

O assunto é extenso e complexo, mas o problema é que é difícil que haja uma transposição universal, pois o alfabeto latino é usado em dezenas de línguas, e todas elas têm entre si diferenças fonéticas mesmo com o uso das mesmas letras. Pegue por exemplo o X, que somente no português pode ter um som equivalente a SH. Ou o dígrafo TH, que em inglês é associado a um fonema que não tem contraparte na língua portuguesa.

Pois bem, voltando à transliteração, ela é importante principalmente para que nomes próprios, como de pessoas ou localidades russas, possam ser transpostos a uma língua como o português.

Uma pesquisa na internet dá conta de que a norma NB-102, editada pela ABNT em 1961, estabeleceu padrões de romanização bastante razoáveis do russo para o português. Entre eles, de que a letra Ж, que tem som de J (como em jogo, jornal ou jumento), seja transliterada exatamente como J. Já a letra Ч, que tem som de TCH (como em tchê bagual!), vira TCH. Tudo perfeito.

Internacionalmente, porém, o padrão ISO 9 vem sendo cada vez mais adotado. Como ele tem base na fonética da língua inglesa, acaba causando diferenças e confusões se utilizado para o português. Quer um exemplo? Em inglês simplesmente não há uma única letra que represente o fonema J (de jogo, jornal ou jumento). Para tanto, ficou estabelecido por essa norma que o Ж russo seja transliterado como o pouco intuitivo ZH. É por isso que, apesar de Jivago sempre ter sido Jivago, você acaba vendo Zhivago por aí. Pelo mesmo ISO 9, o Ч é romanizado como CH, o que faz com que cidades como Сочи (lê-se Sótchi, ou, em bom carioquês, Sóti) acabe sendo romanizada como Sochi.

A esta altura você já imaginou por que estou tocando no assunto. Em pouco mais de um ano, vamos ser inundados por nomes russos com dígrafos como ZH ou CH. Como tradutores, precisamos saber identificá-los em textos em inglês para fazer a substituição fonética apropriada ao português por J e TCH. Além disso, devemos estar atentos para pronunciar os nomes corretamente.

Talvez o maior debate venha a ser suscitado pelo nome do estádio que sediará a final da Copa do Mundo, o estádio mais importante da história do futebol soviético e, posteriormente, russo: o Lujniki. Se você está acompanhando bem este texto, já imaginou que o problema está justamente no J. Sim, o nome desse estádio é transliterado ao inglês como Luzhniki. E como o inglês é o idioma principal de geração de caracteres da Fifa, você verá Luzhniki toda hora na televisão.

Então, quando algum narrador ou comentarista ler o nome com Z, como se fosse "Luzniki", escreva para ele, dê uma tuitada ou quem sabe mande um sinal de fumaça. O nome é Лужники, com Ж, portanto com som de J.

Espero realmente que, dentro das empresas jornalísticas brasileiras que farão a cobertura do evento, haja orientações conscientes para evitar a simples cópia de um sistema feito sob medida para o mundo anglófono quando já temos um padrão brasileiro perfeitamente disseminado. Mas, no fundo, acho que a preguiça vai vencer. Por isso cabe a nós, tradutores, lembrar de algo que sempre repito:

O bom tradutor é uma autoridade da língua. É um guardião do bom uso do idioma.

Comments